Pelo direito à memória! Por um arquivo antirracista, diverso e plural!

Submitted by sandra on qui, 03/11/2022 - 11:17

Editorial gestão 2020-2022 

Aldair Carlos Rodrigues e Mário Augusto Medeiros da Silva

Desde sua fundação em 1974 a partir do espólio do militante anarquista e intelectual Edgard Leuenroth, o AEL vem diversificando seus fundos e coleções ao ritmo da complexificação das agendas dos movimentos sociais. Nas suas primeiras décadas de existência, predominavam aquisições ligadas às lutas contra a ditadura militar, violação de direitos humanos e, sobretudo, história dos partidos de esquerda, movimentos sindicais e mundos do trabalho em geral. No contexto pós-1988, o arquivo passou a incorporar também acervos que documentavam a emergência do movimento LGBTQIA +, somando atualmente 11 conjuntos.

A gestão 2020-2022 procurou dar continuidade à missão de fazer do AEL um arquivo vivo e  referência para os movimentos sociais ao posicioná-lo em relação às lutas antirracistas, que remontam à fundação do Movimento Negro Unificado em 1978 e se aprofundam a partir da década de 1990 e anos 2000. Esse esforço ocorre em diálogo com as transformações profundas pelas quais as universidades brasileiras passam após a conquista das ações afirmativas. No caso da Unicamp, em resposta à forte mobilização dos estudantes negros em 2016, as cotas raciais foram adotadas no vestibular de 2019.

Nesse contexto, nossa gestão assume o compromisso de transformar o AEL em um arquivo antirracista comprometido com a captação ativa de acervos que documentam o protagonismo negro, garantindo a preservação e a difusão da memória negra. Isso é possível por meio de uma parceria robusta com o Afro-CEBRAP (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial) e com o Centro de Estudo das Migrações do IFCH-UNICAMP-Linha de pesquisa Hip Hop em Trânsito, que promoveu a formação de uma rede de pesquisadores para obtenção de recursos e aquisição de acervos.

Trabalhamos com documentação de ativistas e intelectuais negros cujas trajetórias são cruciais para a compreensão do passado, presente e futuro do país: Reginaldo Bispo e Margarida Barbosa (Movimento Negro Unificado - SP), Milton Barbosa (Movimento Negro Unificado - SP), Geledés Instituto da Mulher Negra, Januário Garcia, Soweto Organização Negra, King Nino BrownAlexandre de Maio, Chico Piauí e Jacira da Silva (Movimento Negro Unificado-DF), Estevão Maya Maya, José Correia Leite, Quilombhoje, Azoilda Trindade, Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade (CEERT). E a perspectiva é ampliarmos esse escopo.

Intelectuais negras e negros e os movimentos e organizações que criaram ao longo décadas têm compreendido cada vez mais a necessidade de também militar pela salvaguarda de sua memória social, especialmente em tempos em que a hegemonia política é adversa, violenta e arbitrária contra o seu direito de transmitir suas experiências de lutas por direitos para as novas gerações. Não são apenas eles: mulheres e movimentos feministas, movimentos LGBTQIA+ e ativistas que os compõem, intelectuais indígenas e os movimentos dos povos originários, por exemplo, têm a mesma percepção. Neste cenário, a universidade pública tem a obrigação de desempenhar seu papel como lugar da diversidade, da pluralidade e do combate à desigualdade social. Os movimentos sociais têm nos demandado cada vez mais este papel, do qual não podemos nos furtar como instituição pública, gratuita e de excelência na preservação da memória social, especialmente das experiências políticas subalternizadas.

Especificamente sobre a preservação da memória social negra, que tem sido a força de nossa gestão à frente do AEL, há uma ressignificação desses acervos no momento em que passam a fazer parte de um arquivo público em contexto mais amplo de implementação das ações afirmativas, desde 2015, na Unicamp. O legado documental das mesmas organizações que denunciaram a desigualdade racial e exigiram políticas públicas de combate ao racismo passa agora a fomentar o aprofundamento da dimensão epistemológica da política pública. Trata-se, portanto, de um prolongamento e, ao mesmo tempo, uma multiplicação das lutas antirracistas inscritas nesses registros históricos. Se situarmos o espólio documental das organizações negras ao lado da ação dos coletivos de estudantes negros da Unicamp, os acervos passam a mediar diálogos entre, pelo menos, duas gerações de ativistas por meio do trabalho de organização e difusão. Isso ocorre precisamente no âmbito da agenda de reivindicações dos estudantes por transformações no corpus
de referências das disciplinas a partir da incorporação do pensamento negro em suas ementas. Em 2015, cursos de pós-graduação do IFCH iniciaram, após a importante greve de 2014, ações afirmativas para pretos, pardos e indígenas. Iniciativas semelhantes ocorreram posteriormente em outros programas de pós-graduação na universidade. Em 2017, o Conselho Universitário aprovou o princípio e as alterações necessárias para ações afirmativas para pretos, pardos e indígenas no Vestibular Unicamp, que passaram a vigorar no vestibular de 2019. Tudo isso foi conquistado por meio da luta social protagonizada por estudantes organizados, apoiados por docentes e funcionários administrativos. A mudança no perfil do corpo estudantil que frequenta o campus é a faceta mais evidente da transformação, aliada aos números e resultados positivos da chegada desses estudantes em diversos cursos, laboratórios, bibliotecas, salas de aula, espaços variados etc. Ao entrar aqui, eles buscam referências. Este é o papel da memória social como meio de transmissão de conhecimento. Esta é a tarefa de um arquivo público como lugar de preservação da memória social. Esta tem sido a nossa tarefa à frente do Arquivo Edgard Leuenroth, acompanhando um longo legado de diretores e diretoras docentes e de diferentes gerações de servidores públicos que construíram um lugar para a preservação da memória dos direitos humanos em nossa universidade. Para que eventos traumáticos e violentos, especialmente contra grupos subalternizados, nunca mais voltem a acontecer, para que nunca nos esqueçamos. E para que, principalmente, o tempo presente possa construir sempre perspectivas mais arejadas e plurais de futuro.

Saiba mais: O Arquivo Edgard Leuenroth hoje!Quem foi Edgard Leuenroth?Memória NegraProjeto faz da Unicamp referência em preservação da memória negra

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